Por: Roza Palomanes
(Profª Adjunta da UFRRJ - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)
O surgimento da Linguística Cognitiva (doravante LC) nos termos de Lakoff, Langacker, Talmy e Fillmore, nas duas últimas décadas, pode ser vista como a renovação do interesse por se estudar a conceptualização da realidade pela língua.
A LC é uma abordagem da linguagem que vê o conhecimento em conexão com as experiências de mundo do ser. São estudadas as unidades e as estruturas da linguagem como manifestações de capacidades cognitivas gerais, da organização conceptual, de princípios de categorização, de mecanismos de processamento e da experiência cultural, social e individual.
A LC surgiu nos finais da década de 70 e foi impulsionada pelo interesse pelo fenômeno da significação e pela investigação psicolingüística de Eleanor Rosch (Rosch 1978, Rosch & Mervis 1975) sobre o papel fundamental dos protótipos no processo de categorização. Em 1990 se institucionaliza, com a criação da "International Cognitive Linguistics Association", da revista "Cognitive Linguistics", dirigida por Dirk Geeraerts e da coleção "Cognitive Linguistics Research", editada por René Dirven e Ronald Langacker e publicada por Mouton de Gruyter.
São temas de especial interesse da LC, dentre outros, a interface conceptual entre sintaxe e semântica e a base pragmática ligada à experiência da linguagem no uso.
Negando a tese da autonomia da linguagem, a LC opõe-se ao estruturalismo e ao gerativismo. O estruturalismo lingüístico, nas suas diferentes formas, entende e estuda a linguagem como um sistema que se basta a si mesmo, com uma estrutura própria e seus próprios princípios constitutivos. Por isto, considera como aspectos extralingüísticos o mundo e nossa percepção dele.
A gramática gerativa de Chomsky e seus discípulos defende que a faculdade da linguagem é um componente autônomo da mente e, em princípio, independente de outras faculdades mentais; portanto, o conhecimento da linguagem seria independente de outros tipos de conhecimento. A LC, por sua vez, rejeita o princípio de autonomia da linguagem, a afirmação da discrição e homogeneidade das categorias lingüísticas, a idéia de que a linguagem é gerada por regras lógicas e por traços semânticos objetivos e a tese chomskyana da autonomia e da não-motivação semântica e conceptual da sintaxe.
Pela importância que atribui aos aspectos funcionais dos fenômenos linguísticos, e por desenvolver uma análise linguística com base na observação do uso linguístico (cf. Langaker 1987, que caracteriza a LC justamente como "usage-based model"), opondo-se assim ao abandono chomskyano da performance lingüística, a LC é um tipo de lingüística pragmaticamente orientada, tanto teórica como metodologicamente.
Por ser a linguagem considerada como uma parte integrante da cognição e em interação com outros sistemas cognitivos (percepção, atenção, memória, raciocínio, etc.), a LC está aberta à interdisciplinaridade com as outras ciências cognitivas (Psicologia, Inteligência artificial, Neurociência, etc).
A LC caracteriza-se, ainda no quadro da ciência cognitiva, pela importância que atribui à semântica na análise linguística. A primazia da semântica decorre da própria perspectiva cognitiva: a linguagem funciona como um dispositivo cognitivo para a construção do conhecimento, acionando um conjunto de princípios relativamente limitados, que operam sobre os conhecimentos armazenados na memória ou presentes na situação comunicativa.
Lakoff e Johnson definem a posição filosófica e epistemológica da LC como sendo o não-objetivismo ou o experiencialismo (cf. Lakoff & Johnson 1980, Lakoff 1987, Johnson 1987, Johnson 1992). Isto pode ser explicado da seguinte forma: a cognição é determinada pela própria experiência corporal do homem e pela experiência individual e coletiva. Também se diz que a LC é paradigmática no sentido de que assinala que a interpretação e a aquisição de novas experiências é feita à luz de conceitos e categorias já existentes, que, por isso mesmo, funcionam como paradigmas ou protótipos.
Falando em experiencialismo, não poderíamos deixar de resumir, em rápidas palavras, o conteúdo da obra de Lakoff e Johnson (1999). Philosophy in the flesh, dos autores citados, aborda os seguintes aspectos que resumem e caracterizam o livro:
a) A mente é inerentemente corporificada.
b) O pensamento é quase totalmente inconsciente.
c) Conceitos abstratos são amplamente metafóricos.
A primeira parte do livro estabelece essas três afirmações como descobertas da ciência cognitiva. Abordando questões filosóficas, usamos a razão moldada pelo corpo, uma inconsciência cognitiva, a qual não temos acesso direto, e um pensamento metafórico do qual somos amplamente inconscientes. O fato de que o pensamento abstrato é quase que totalmente metafórico significa que respostas a questões filosóficas têm sido, e sempre serão, quase totalmente metafóricas. O pensamento metafórico é a principal ferramenta que torna possível o insight filosófico e que regula as formas que a filosofia pode ter. A reflexão filosófica, sem o apoio da Ciência Cognitiva (doravante CC), nada descobre ou estabelece, e não investiga, em detalhes, os aspectos fundamentais da mente.
Juntos, o inconsciente cognitivo, a corporificação da mente e o pensamento metafórico requerem, não apenas, uma nova forma de entender a razão e a natureza humana, mas, também, uma nova compreensão de uma das mais comuns e naturais atividades humanas: a indagação de questões filosóficas.
Este livro é um primeiro passo na direção de se repensar o que a filosofia pode vir a ser. Os métodos usados pelos autores vêm da CC e da LC.
Lakoff e Johnson utilizam os métodos que a CC oferece para analisar certos conceitos básicos que qualquer abordagem filosófica deve incluir como tempo, eventos e causas, mente, o ser e a moralidade.
Na parte 3 do livro, os autores começam o estudo da filosofia propriamente dita da perspectiva da CC. Aplicam métodos analíticos a importantes momentos da história da filosofia: a metafísica grega, incluindo os pré-socráticos Platão e Aristóteles, a teoria da mente de Descartes, a teoria moral de Kant e a filosofia analítica. Argumentam que os métodos da Ciência Cognitiva levam a insights novos e profundos dentro dessas grandes edificações intelectuais. Segundo os autores, esses métodos nos ajudam a entender aquelas filosofias e explicar o por que, apesar de sua diferenças fundamentais, elas têm parecido intuitivas para muitas pessoas ao longo dos séculos.
Lakoff e Johnson também abordam a filosofia contemporânea, a Linguística e as Ciências Sociais, em particular a filosofia analítica Anglo-Americana e a Lingüística Chomskiana.
Especialmente com relação à linguagem, para os autores a língua não é pura sintaxe, pura forma, independente de todo significado, contexto, percepção, emoção, memória, atenção, ação e da dinâmica natureza da comunicação. E vão além dizendo que a linguagem humana não é totalmente genética; ao contrário, aspectos centrais da linguagem brotam evolucionariamente do sensório, do motor e de outros sistemas neurais presentes no mais ínfimo animal.
Para a LC, as categorias gramaticais são também, tal como as lexicais, entidades simbólicas, isto é, significativas (simbolizam um conteúdo conceptual). Elas devem, portanto ser consideradas não somente em termos das suas propriedades sintáticas, mas tendo em conta a sua base semântica. Tal como o léxico, a gramática é motivada por aspectos e funções conceptuais e semânticas e está intimamente relacionada com a categorização, processos imagéticos, modelos cognitivos e culturais. Esta perspectiva simbólica da gramática tem a sua expressão mais elaborada na Gramática Cognitiva de Langacker (1987, 1990, 1991) e na Gramática das Construções (Fillmore, Kay & O'Connor 1988; Goldberg 1995 e 2006). Mas isto é assunto para uma outra conversa.