Linguística Cognitiva: conceitos básicos
Por Fernanda da Silva Ribeiro
Rede radial
Rede radial descreve uma estrutura de categoria na qual um sentido de uma palavra se espraia, atingindo outros elementos e que percebemos em outros elementos alguma coisa que faz com que a liguemos com o sentido central. Parte de seu sentido concreto para outros mais abstratos. Como exemplo, temos o verbo ”ficar” que vem do latim “figicare”, que significava “pregar com o prego”. Aí temos um uso mais concreto que foi se espraiando para outros usos mais abstratos, metafóricos. Então hoje temos o verbo ficar com o sentido de permanecer. Mas podemos encontrar esse verbo em outros contextos, com outros significados. Assim, quando um rapaz diz “Estou ficando com aquela menina” esse ficar tem o sentido de namorar uma pessoa sem compromisso, permanecendo com ela por um tempo curto. Temos também a palavra cabeça (parte do corpo) e temos seu uso mais metafórico em “Ele é o cabeça do grupo” que mantém uma ligação com seu uso mais concreto por ser a parte que pensa, a parte mais alta do corpo, que comanda e guia. Essa ligação também acontece com os dois sentidos do verbo ficar, acima mencionados.
Preposições também são ótimos exemplos para descrever a categoria de rede radial. Elas podem ter extensões concretas em que “dentro” tem sua significação real em “a boneca está dentro da caixa” e extensões mais metafóricas em usos temporais como “dentro de um período de tempo”, no qual há o caso menos central estendido de sua significação mais central.
Em Rede Radial (ou radial network) temos extensões de usos vindo de situações mais concretas para outras mais abstratas.
Teoria dos protótipos
Essa teoria diz que existem categorias e ações em que encaixamos todos os elementos que tem características comuns àquela categoria. Por exemplo, na categoria prototípica das aves, temos a águia sendo um exemplar prototípico, pois se encaixa em tudo que diz respeito as aves – tem asas, tem penas, voam, tem bico, põem ovos. E o pinguim, que não prototípico, possui certas características que fazem com que ele se encaixe nessa categoria.
Rede esquemática
É uma generalização do modelo de rede radial. Temos a teoria dos protótipos, que é uma generalização, e dentro dessa teoria encontra-se a rede radial. Para entendermos a prototipicalização, temos um modelo que explica isso: um elemento mais concreto, mais prototípico que passa a possibilitar novos usos, mais abstratos. É possivel pensarmos em pássaros em diferentes níveis conceptuais. Num primeiro grupo, podemos pensar em pássaros como seres vivos que tem asas e voam, ou seja, mais prototípicos. Se permanecermos nesse nível, podemos mover dos casos prototípicos centrais para casos periféricos, onde os elementos são da categoria, mas não se encaixam ali completamente, como pássaros que não tem penas nem asas e, por isso são colocados para fora, à margem. Mas existem outros níveis em que podemos pensar em pássaros: mais específicos, quando pensamos em pássaros particulares, como o papagaio da nossa avó, e mais gerais, quando agrupamos as espécies de pássaros em categorias, como pássaros que vivem na água, aves de rapina, etc. Então podemos perceber que dentro das categorias categorizamos mais ainda. Dentro das categorias maiores, temos categorias mais específicas. Isso é um esquema. Temos um esquema que vai se encaixando dentro do outro, e assim por diante.
A mudança de um nível mais especifico para um mais geral chama-se esquematização e os modelos de leitura de uma expressão chamam-se rede esquemática.
Metáfora conceitual
A metáfora consiste na transferência de domínios: quando pegamos características de um domínio fonte, concreto, e as atribuímos a um domínio alvo, abstrato. Por exemplo, quando dizemos que “amar é uma guerra”, as características do domínio fonte guerra são atribuídas ao domínio alvo amar: você luta por uma pessoa, persegue-a, ganha chão com ela, vence-a, etc. Podemos ver, então, que amar é uma guerra pelo fato de a pessoa lutar por outra, querer conquistar a outra. E estas características são semelhantes ao contexto de guerra uma vez que, há luta, ganho de território e conquistas.
Outro exemplo de metáfora é a frase “João é um leão”. Sabemos que o leão é forte, valente e corajoso e essas características são atribuídas a João para assim defini-lo.
Metáfora é tratada como um mecanismo cognitivo geral, não como um especificamente lingüístico que trabalha em um nível de expressões individuais e, além disso, envolve a interação entre dois domínios de experiência: um domínio fonte (guerra, como no exemplo acima), e um domínio alvo (amor).
Metonímia
Diferentemente da metáfora, que é baseada na similaridade (se amar é uma guerra é como uma guerra devido a um numero de motivos), a metonímia é baseada na contigüidade, ou proximidade. Por exemplo, quando eu falo que enchi o carro de gasolina, eu não quero dizer que realmente enchi o veículo inteiro com o combustível. Na verdade, eu enchi apenas o tanque. Nesse caso, o todo representa a parte e ambos são associados na realidade. Quando alguém diz que bebeu uma garrafa de vinho, na verdade a pessoa bebeu o conteúdo dela, o vinho, e não a garrafa propriamente dita, até porque seria impossível.
Se a metáfora é vista como um mapeamento de um domínio para o outro, a metonímia é vista como um mapeamento dentro de um único domínio. A mudança de todo para parte em carro é uma mudança dentro do domínio físico, espacial (o próprio carro).
Croft (1993) nos mostra uma perspectiva inovativa: a mudança relevante não é necessariamente dentro de um único domínio, mas pode ser uma mudança dentro de um domínio matriz.
O domínio matriz é uma noção que captura a ideia de que um conceito pode ser simultaneamente definido em vários domínios. Por exemplo, Shakespeare não é conhecido apenas por ser uma pessoa física, mas sim por ser um autor no campo da literatura. Então, quando dizemos que lemos Shakespeare, não estamos nos referindo à pessoa e sim às suas obras literárias.
Croft sugere que façamos a definição de metáfora acima de tudo em termos de tais domínios matriz.
Espaços mentais
Sabemos que a metáfora consiste em um mapeamento de um domínio para o outro. Mas como isso é feito? Temos quatro espaços diferentes: um espaço de entrada de fonte (source input space), um espaço de entrada de alvo (target input space), uma combinação de ambos e um espaço genérico.
Por exemplo, podemos pensar em “bola de basquete na lata de lixo” (trashcan basketball) como um jogo no qual jogamos bolinhas de papel amassadas para dentro de uma lata de lixo, como fazemos num escritório ou na sala de aula. O jogo de basquete é um espaço de entrada de fonte e o escritório ou a sala de aula, outro. O mapeamento entre os dois espaços associa a bola de basquete com a bola de papel, a cesta de basquete com a cesta de lixo, os jogadores com os alunos e etc. Este mapeamento cria uma combinação e suas características relevantes não são apenas diretamente derivadas dos espaços de entrada originais. Pelo contrario, você pode encontrar estruturas emergentes que são especificas da combinação: o fato de que a lata de lixo seria normalmente colocada no chão, em contraste com o anel da cesta de basquete, o que influencia a maneira com que se joga.
O quarto tipo de espaço, o espaço genérico, contem a estrutura comum dos espaços: alguém jogando algo em um recipiente. A descrição destes quatro espaços explica alguns dos nomes alternativos dos quais ela é conhecida: combinação ou espaços mentais. Isto se liga com as analises da metáfora, já que é um mapeamento entre domínios. Alguém poderia dizer que o exemplo da cesta de basquete elabora a metáfora “uma cesta de lixo é uma cesta de basquete”. No entanto, a analise da combinação é mais geral do que o estudo da metáfora.
Estruturas semânticas (Frame semantics)
Estruturas semânticas discute a ideia de que não podemos entender o significado de uma palavra (ou expressão lingüística em geral) sem obter acesso a todo o conhecimento enciclopédico relacionado àquela palavra. Isso obviamente se liga com a natureza não autônoma das semânticas naturais da linguagem: que o significado na linguagem natural não é separado de outras formas de conhecimento implica que não é muito útil manter uma separação rígida entre conhecimento de mundo e conhecimento de significado lingüístico. Enquanto este reconhecimento seria compartilhado por todas as formas de semânticas na lingüística cognitiva, a identidade individual de estruturas semânticas envolve as estruturas especificas de conhecimento enciclopédico que ela invoca. Basicamente, essas estruturas são coisas acontecendo e ocorrendo juntas dentro da realidade. Por exemplo, para entender a palavra vender você precisa ter conhecimento de mundo sobre a situação de transferência comercial. Isto compreende, fora o ato da venda, uma pessoa que vende, uma pessoa que compra, produtos para serem vendidos, dinheiro ou outra forma de pagamento e assim por diante.
Uma estrutura semântica desse tipo é uma estrutura coerente de conceitos relacionados onde as relações têm a ver com a maneira com que os conceitos co-ocorrem em situações de mundo real. Conhecimento da estrutura é necessário para um conhecimento adequado das palavras referentes aos conceitos dela: uma palavra ativa a estrutura, aponta conceitos individuais em seu interior e freqüentemente determina uma certa perspectiva na qual a ela é vista. No exemplo do modelo padrão de transação comercial, por exemplo, vender constrói uma situação da perspectiva do vendedor, e comprar da perspectiva do comprador.
Embora o fato de as estruturas semânticas terem sido originalmente aplicadas com predomínio na descrição semântica das palavras, há um relacionamento próximo com a gramática da construção. Palavras como vender vêm com seu próprio grupo de construções (como vender algo para alguém ou vender algo para alguém por um certo preço), e as diferentes construções refletem diferentes caminhos nos quais a estrutura possa ser destacada. Neste caminho, estruturas semânticas podem ser integradas com a gramática da construção como um modo de especificar as semânticas das construções. Acima de tudo, nós podemos agora ver que as estruturas semânticas ocupam uma posição transicional em nosso agrupamento de conceitos. Por um lado, se nós focarmos em um caminho no qual ele usa conhecimento enciclopédico estruturado como o plano de fundo para a descrição dos significados na língua natural, ele pertence ao grupo anterior de papéis: descreve um dos caminhos em que a natureza de um conhecimento enciclopédico conceptual é estruturada. Por outro lado, se nos concentrarmos na entrada que as estruturas semânticas fornecem para a descrição dos tipos de construção, ele se liga com o presente número de artigos.
Fernanda da Silva Ribeiro



